Por John Bunyan
“Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna. Fiel é a palavra, e isto quero que deveras afirmes, para que os que creem em Deus procurem aplicar-se às boas obras; estas coisas são boas e proveitosas aos homens” (Tito 3:7-8).
“Fiel é a palavra”. Qual? Ora, aqui que foi dito anteriormente: “Para que, sendo justificados pela sua graça, sejamos feitos herdeiros segundo a esperança da vida eterna. Fiel é a palavra, e isto quero que deveras afirmes”. Por quê? “Para que os que creem em Deus procurem aplicar-se às boas obras”. O significado é que o modo correto de estimular os outros às boas obras está na constante evidência e demonstração da certeza que os crentes têm de serem, pela graça, herdeiros da vida eterna. Portanto, a partir dessa passagem da Escritura, observo o seguinte:
PRIMEIRO, que as boas obras fluem da fé. Sim,
SEGUNDO, todo
aquele que crê deve cuidar para que as suas obras sejam boas.
TERCEIRO, que
todo crente não apenas deve tomar cuidado para que pratique boas obras, mas
também deve ter cuidado em perseverar nelas; isto é, eles devem se aplicar
cuidadosamente à prática contínua de boas obras.
QUARTO, e
finalmente, observo que a melhor maneira de estimular a nós mesmos e aos outros
a essas obras é afirmar constantemente aos outros a doutrina da justificação
pela graça, e crer nela. Paulo diz: “Fiel é a palavra, e isto quero que deveras
afirmes, para que os que creem em Deus procurem aplicar-se às boas obras”.
As boas obras fluem da fé. Isso é evidente de várias
maneiras
Primeiro, é impossível que as boas obras fluam de qualquer outra coisa. Elas devem fluir da fé, ou não fluirão de nenhum outro lugar: “Pois tudo o que não procede da fé é pecado” (Romanos 14:23). E “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hebreus 11:6). Todo homem por natureza, antes da fé, é uma árvore má e corrupta; e uma árvore corrupta não pode dar bons frutos: “Os homens colhem uvas de espinhos ou figos de cardos?” (Mateus 7:16-17). Agora, é somente depois que um homem é transformado em uma árvore boa através da fé que ele pode produzir os frutos que são aceitáveis a Deus (Hebreus 11:4; Colossenses 1:4-6).
Portanto, os pecadores antes de chegarem a crer comparados ao deserto, cujos frutos são espinhos e cardos; e cujos corações são como um covil de dragões, ou seja, de demônios[3] (Isaías 35:6-7; Hebreus 6:7-8). E, portanto, em outras passagens eles são descritos aqueles que estão sem Deus, sem Cristo, sem o Espírito, sem fé, sem esperança, alheios ao Pacto da Graça e fracos; e ainda outras passagens bíblicas os descrevem como inimigos em suas mentes pelas obras perversas e possuídos por um espírito de perversidade, como um castelo tomado por um conquistador (Efésios 2:12; Judas 19; 2 Tessalonicenses 3:2; Colossenses 1:21; Lucas 11:21).
Agora, sendo assim, é impossível que todos os homens sob o céu, que não são convertidos, sejam capazes de realizar uma obra que seja realmente boa; é tão impossível quanto o é a todos os espinhos e cardos produzirem um cacho de uvas ou figos; pois de fato eles carecem de qualificação. Um espinheiro não produz figos, porque não possuem a natureza da figueira ou da videira. Boas obras devem vir de um bom coração. Ora, o incrédulo não possui um coração bom, pois não crê e é a fé que purifica o coração (Lucas 6:45; Atos 15:9). As boas obras devem proceder do amor ao Senhor Jesus; mas o incrédulo está destituído desse amor, pois ele está destituído de fé e é ela que “opera pelo amor”, e isso significa fazer o bem (Gálatas 5:6).
Embora o homem carnal faça o que ele pode chamar de bom, ele é rejeitado, pois, as suas orações são abomináveis (Provérbios 15:8), a sua lavoura é pecado (Provérbios 21:4) e todas as suas justiças são como trapos imundos (Isaías 64:6).
Veja que sem fé não há boas obras. Agora, então, mostrarei a você que essas boas obras fluem da fé, pois essa fé é um princípio de vida pelo qual um cristão vive (Gálatas 2:19-20), um princípio de ação, pelo qual ele caminha em direção ao céu em santidade (Romanos 4:12; 2 Coríntios 5:7). Ela é também um princípio de força, pelo qual a alma se opõe à sua própria maldade, ao Diabo e a este mundo, e os vence. “Esta é a vitória... a nossa fé” (1 João 5:4-5). A fé no coração de um cristão é como o sal que foi jogado nas águas más, e que transformou em águas boas, e também transformou em frutífera a terra estéril (2 Reis 2:19-22). A fé, quando operada no coração, é como o fermento escondido na massa (Mateus 13:33) ou como o perfume que aromatiza o couro mau cheiroso, transformando o cheiro do couro em um doce perfume; quando a fé é plantada no coração, ele passa a se inclinar naturalmente para a santidade. Por isso, segue-se uma mudança de vida e da conversação, e assim produz frutos de acordo com tal transformação. “Um homem bom, do bom tesouro do seu coração, tira coisas boas” (Lucas 6:45). Que tesouro é a fé! (Tiago 2:5; 1 Pedro 1:7). E, por causa disso, essa fé é chamada de “fé segundo a piedade” (Tito 1:1) e de “santíssima fé” (Judas 1:20).
Segundo, as boas obras necessitam fluir da fé, ou não procederão de lugar algum; porque somente a fé traz consigo um argumento suficientemente prevalente para vencer a nossa natureza e fazê-la obedecer à santidade.
A fé nos mostra que Deus nos ama, que Ele perdoa os nossos pecados, que nos considera Seus filhos, ao nos justificar livremente pelo sangue do Seu Filho (Romanos 3:24-25, cap. 4; Hebreus 11:13; 1 Pedro 1:8).
A fé recebe a promessa, a toma para si e consola a alma de modo inefável. A fé é tão habilidosa em argumentar e arrazoar com a alma, que vencerá até mesmo o coração mais duro. A fé trará à minha lembrança de uma só vez tanto a minha vileza contra Deus quanto a Sua bondade para comigo; ela me mostrará que embora eu não mereça sequer respirar, Deus me fará um herdeiro da glória. Ora, não há argumento maior que esse. Ele fará um homem passar por dez mil dificuldades, para que possa agradar a Deus, ainda que não faça isso por si mesmo, mas pela graça concedida a ele. Além disso, a fé me mostrará quão distintamente esse amor de Deus foi posto sobre mim e me mostrará que embora Esaú fosse irmão de Jacó, Ele amava Jacó (Malaquias 1:2). Que embora houvesse milhares que eram tão bons quanto eu, contudo eu sou o homem escolhido. Ora, esse é um argumento maravilhoso e indescritivelmente prevalecente para com o pecador, como diz o apóstolo: “Porque o amor de Cristo nos constrange; porque assim julgamos que se um morreu por todos, então todos morreram; e que ele morreu por todos; que aqueles que vivem”, ou seja, pela fé “não devem mais viver para si mesmos, mas para aquele que morreu por eles e ressuscitou” (2 Coríntios 5:14-15). “O amor”, diz o sábio, “é forte como a morte; as muitas águas não podem apagar o amor, nem as inundações o afogam: se um homem desse toda a soma de sua casa pelo amor, seria totalmente desprezado” (Cântico 8:6-7). Ah! quando a alma condenada, quebrantada e moribunda consegue ver, pela fé, o amor de um Salvador de coração terno, e também vê o que Ele sofreu para libertá-lo da morte, da culpa e do inferno, então ela teme por saber dessa maldição que ela muito justamente merecia! “Bendize, ó minha alma, ao Senhor” (Salmos 103:1-3); e “o que darei ao Senhor por todos os Seus benefícios?” (Salmos 116:1-14).
Assim, a fé é um argumento que prevalece com o pecador, pelo qual ele deixa de ser o que era, e é forçado a se curvar e se submeter ao que antes ele não queria nem poderia (1 Coríntios 2:14; Romanos 8:7). Por isso a obediência ao Evangelho é chamada de “obediência da fé”, bem como obediência à fé (Romanos 16:26). Pois ela deve acontecer pela fé de Cristo em meu coração, por meio da qual me submeto à Palavra da fé na Bíblia; caso contrário, tudo será inútil, como diz o apóstolo: “A palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” (Hebreus 4:2). Somente a fé pode ver a realidade que o Evangelho revela; e assim, argumentar com o coração para que a receba.
Terceiro, a fé é uma graça, pois representará para a alma todas as coisas em suas cores apropriadas. Ela não mostra todas as coisas distorcidas, como o fazem a incredulidade e a ignorância, as quais chamam a luz de trevas e o amargo, de doce; mas a fé nos fará ver corretamente todas as coisas. Deus e Cristo serão vistos como o bem maior, o mais amável e o mais desejável; uma vida celestial será mais estimada e preciosa para nós do que todos os tesouros do Egito! A justiça e a santificação serão as coisas pelas quais nós lutaremos com mais veemência; porque ela não vê a morte e a condenação apenas como frutos do pecado, mas vê também o pecado em si mesmo, distinto do castigo que lhe acompanha, como algo detestável, horrível e odioso (Hebreus 11:25-27; Filipenses 3:7-12; Romanos 12:9).
Pela fé, vemos que não há lugar permanente para nós neste mundo, e nem algo que possa nos satisfazer (Provérbios 3:35; Hebreus 11:15-16, 13:14; 1 Coríntios 7:9-31). Por isso o povo de Deus tem gemido para sair daqui, para um estado onde não há pecado e nem tentação. E, é por isso que eles têm passado por tantas provações, aflições e adversidades, a saber, por causa desse amor à santidade de vida comunicado a eles pela fé que há em seus corações, e lhes mostrou valor e a durabilidade daquilo que é realmente bom, e a malignidade de todas as demais coisas (2 Coríntios 5:1- 8; Hebreus 11:33-39). Quarto, a fé se apossa daquilo que é capaz de ajudar a alma a realizar as boas obras: ele se apossa da força de Cristo, e com isso vence aquilo que a oprime. “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Filipenses 4:13).
Em resumo, uma vida de santidade e piedade neste mundo segue tão inseparavelmente um princípio de fé, que é algo absurdo e ridículo supor o contrário. O quê? Aquele que tem vida não consegue se mover? (Gálatas 2:20). Aquele que pela fé recebeu o espírito de santidade, não será santo? (Gálatas 3:2), e aquele que é chamado à glória e à virtude, não acrescentará à sua fé a virtude? (2 Pedro 1:4-5). Pela fé somos transformados em boas árvores, e não produziremos bons frutos? (Lucas 6:43). Os que creem são criados em Cristo Jesus para boas obras; e Deus ordenou, antes que o mundo existisse, que andássemos nelas; e será que nossa segunda criação e a preordenação de Deus serão frustradas? (Efésios 1:4, 2:10). Além disso, os filhos da fé são os filhos da luz e do dia (1 Tessalonicenses 5:5). Luzes sobre uma colina e velas em um castiçal, porventura não brilharão? Eles são o sal da terra, não devem temperar? (Mateus 5:13-16).
O crente é o homem por meio de quem Deus mostra ao mundo o poder de Sua graça, a operação da fé do Seu povo etc. Os incrédulos leem de fato o poder da graça, fé, esperança, amor, alegria, paz e santificação a partir do coração do cristão; mas eles não sentem nada dessa operação mortificadora do pecado que há nessas coisas; para eles ler isso é como ler uma história acerca de Roma ou da Espanha. Portanto, para mostrá-los àqueles que não os têm em si mesmos, Deus opera a fé, a esperança, a amor etc., em uma geração que O servirá; e assim, verão o que não podem encontrar em si mesmos; e por esse meio eles devem ser convencidos de que, embora o pecado e os prazeres desta vida sejam doces para eles, ainda assim há um povo que vive de modo diferente; um povo que de fato vê a glória daquilo que os outros apenas leem, e a partir dessa visão se deleita naquelas coisas às quais os demais são avessos. Afirmo que os cristãos são chamados para esse fim e para glorificar a Deus por esse meio; assim os pecadores são convencidos e o mundo é condenado (1 Tessalonicenses 4:7; 1 Pedro 2:12, 3:1; Hebreus 11:7).
Objeção
Mas se a fé causa naturalmente boas obras, qual é a razão pela qual o povo de Deus acha tão difícil ser frutífero em boas obras?
Resposta
1. O povo de Deus é frutífero em boas obras, de acordo com a proporção de sua fé; se eles são tem poucas boas obras, é porque são fracos na fé. Pouca fé é como velas pequenas, ou fogo fraco, que os quais, embora brilhem e emitam calor, brilham e aquecem pouco, quando comparadas com velas e chamas maiores. A razão pela qual havia em Sardes algumas pessoas cujas obras não eram perfeitas diante de Deus, foi porque elas não mantiveram firmemente, através da fé, a Palavra que anteriormente ouviram e receberam (Apocalipse 3:1-3).
2. Pode haver um grande erro ao julgar os nossos próprios frutos. A alma que, de fato, é sincera tem um coração reto, é ensinada pela graça a julgar a si mesma como estéril, embora seja frutífera, e isso sob dois aspectos: (1.) Quando ela compara a sua vida à misericórdia que lhe é dada: pois quando uma alma realmente considera a grandeza e as riquezas da misericórdia que lhe são concedidas, deve necessariamente clamar: “Miserável homem que eu sou” (Romanos 7:24), pois se vê grandemente aquém da conduta de alguém que recebeu um benefício tão grande. (2.) Também pode julgar-se estéril porque fica muito aquém do que deseja: “...para que não façais o que quereis” (Gálatas 5:17).
3. O coração de um cristão é naturalmente muito estéril. Embora a semente da graça, que é a mais frutífera de todas as sementes, seja semeada nele, o coração está naturalmente sujeito a produzir ervas daninhas (Mateus 15:19). Agora, para obter uma boa colheita a partir de tal solo, observe quão fecunda é a semente! Portanto, concluo: (1) Que a semente da fé é uma semente muito frutífera, na medida em que dará frutos em um solo tão árido. (2) Que essa fé não se deve ao coração, mas o coração deve à fé toda a sua fecundidade. (3.) Que, portanto, o caminho para ser um cristão mais frutífero é ser mais forte na fé.
Todo aquele que crê deve cuidar para que as suas obras sejam boas. Continuaremos a falar sobre o que foi dito antes, ou seja, o coração de um cristão é suscetível a produzir ervas daninhas. Há carne e espírito no melhor dos santos; e como o espírito da graça sempre produz algo que é bom, assim também a carne produz continuamente o que é mau. “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne” (Gálatas 5:17). Essa é a causa pela qual você encontra com tanta frequência nas Escrituras exortações e advertências para os cristãos vigiarem quanto às suas vidas e condutas, como por exemplo: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração” (Provérbios 4:23). “Vigiai, estai firmes na fé; portai-vos varonilmente, e fortalecei-vos” (1 Coríntios 16:13). “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna” (Gálatas 6:7-8).
Nem todas as obras são boas, ainda que pareçam ser. Uma coisa é um homem estar certo aos seus próprios olhos, e outra é estar certo aos olhos de Deus. Frequentemente “aquilo que é altamente exaltado entre os homens é abominação diante de Deus” (Provérbios 30:12; Lucas 16:15).
Vendo que a corrupção ainda não foi expurgada de nossa natureza, há uma propensão em edificarmos sobre o fundamento certo, porém, usarmos madeira, feno e palha, em vez de ouro e prata e pedras preciosas (1 Coríntios 3:11-15) ) Como Davi, o rei; Natã, o profeta; e Uzá, o sacerdote, se enganaram no que se refere às boas obras! (1 Crônicas 17:1-4; 13:9-11). Pedro também se equivocou ao defender o seu Mestre no jardim e ao buscar dissuadi-lo de seus sofrimentos, embora tenha agido por amor e afeição ao seu Mestre, ele se enganou ao pensar que aquilo seriam boas obras (Mateus 16: 22-23; João 18:10-11). Muitos têm errado quanto à doutrina e ao culto, e quanto à prática de ambos.
Em primeiro lugar, quanto à doutrina. Cristo diz aos judeus que eles ensinavam doutrinas e tradições de homens em vez das doutrinas de Deus (Mateus 15:9; Marcos 7:7). O apóstolo também afirma que eles ensinavam “o que não convém, por torpe ganância” (Tito 1:11).
Em segundo lugar, quanto ao culto, descobrimos que com frequência os homens se enganam, quanto ao tempo, lugar e essência, do que adoravam.
1. Quanto ao tempo. Ocorre quando o homem inventa o que Deus não ordenou (1 Reis 12:32). Eles “mudam os estatutos”, diz Isaías 24:5. Eles transformam “em impiedade os juízos de Deus”, diz Ezequiel 5:6.
2. Quanto ao lugar. Quando deveriam ter adorado em Jerusalém, adoravam em Betel, Gilgal e Dã, nos jardins, bosques e sepulcros (1 Reis 12:26-30; Oséias 4:13-15; Isaías 65:2-5).
3. Quanto à essência do que adoravam. Em vez de cumprirem os mandamentos, traziam para o sacrifício os coxos, dilacerados e enfermos; eles se santificavam em jardins, comiam carnes de porcos e ratos, quando deveriam fazê-lo em Jerusalém, com novilhos e cordeiros (Isaías 66:17).
Em terceiro lugar, quanto ao zelo dos homens pela adoração que eles pensam ser correta; como eles são fervorosas, embora não possuam nenhum entendimento? Nabucodonosor terá sua fornalha ardente, e Dario, seu covil para os não-conformistas, aqueles que não se conformam às suas leis (Daniel 3:6, 6:7 etc.). Tais homens perseguiram seus semelhantes até cidades estranhas; colocaram armadilhas e laços em todos os lugares, a fim de prendê-los e enredá-los em suas palavras; e se eles pudessem, a qualquer momento, matar as pessoas de quem discordavam, fariam isso e ainda pensariam estar prestando um bom serviço a Deus (Atos 26:11; Lucas 11:53-54; João 19:1-2). Mas não precisamos ir tão longe para confirmar as minhas palavras. Não precisamos de nada além dos papistas e seus companheiros para confirmar isso. Em todas as épocas, quantas pessoas eles enforcaram, queimaram, mataram de fome, afogaram, torturaram, desmembraram e assassinaram, abertamente e em secreto? E alegaram fazer tudo isso em nome de Deus, para adorá-lO e fazer e boas obras.[4] Assim, você vê como homens sábios e tolos, santos e pecadores, cristãos e pagãos, erram na questão das boas obras; portanto, todos devem cuidar para que as suas obras sejam boas.
Com a ajuda de Deus, para evitar erros neste assunto, mostrarei a você o que é uma obra realmente boa. Primeiro, uma boa obra deve ter a Palavra de Deus como sua autoridade. Segundo, como antes foi dito, ela deve fluir da fé. Terceiro, ela deve ser feita no tempo e de modo certo. Em quarto lugar, deve ser feita de modo voluntário, alegre etc.:
Em primeiro lugar, deve ter a Palavra como sua autoridade. O zelo sem entendimento é como um cavalo cego, ou como uma espada na mão de um louco; e não há entendimento onde não há a Palavra, pois se rejeitam a Palavra do Senhor e não agem em conformidade com ela, “que sabedoria há neles?” diz o profeta (Jeremias 8:9; Isaías 8:20). Portanto, cuide para que a Palavra seja a regra para tudo que você faz.
Em segundo lugar, assim como deve haver a Palavra para autorizar o que você faz, também deve haver a fé, de onde as obras devem fluir, como já mostrei: “Pois tudo o que não procede da fé é pecado” e “sem fé, é impossível agradar a Deus”. Ora, sem a Palavra não há fé (Romanos 10:17: como sem a fé não pode haver nada que seja bom, não importa quaisquer que sejam as pretensões humanas).
Em terceiro lugar, como deve haver a Palavra e a fé, também deve haver: 1. O tempo certo; e 2. O lugar certo.
1. Deve haver o tempo certo. As obras não devem ser feitas todas ao mesmo tempo, pois nem sempre o tempo é conveniente para cada uma delas. “Tudo tem o seu tempo determinado” (Eclesiastes 3:1) e “Tudo fez formoso em seu tempo” (v. 11). Há tempo para orar, tempo para ouvir, tempo para ler, tempo para conversar, tempo para meditar, tempo para agir e tempo para padecer. Agora, ouvir quando deveríamos estar pregando e agindo, ou seja, rendendo obediência ativa àquilo pelo qual devemos sofrer, não é bom. Cristo era muito cuidadoso, pois os Seus feitos e sofrimentos ocorriam no tempo exato (João 2:3-4; 13:1-2). E nós devemos seguir os Seus passos. Estar no campo com as mãos no arado quando eu deveria estar ouvindo a Palavra, não é bom; e estar conversando com os de fora quando eu deveria estar instruindo minha família em casa, é ruim também: “Assim, quem sabe obedecer suas ordens não sofrerá punição alguma, porquanto o coração sábio compreenderá a melhor hora e a maneira certa de agir” (Eclesiastes 8:5, KJA). As coisas boas feitas no tempo errado são infrutíferas, inúteis e vãs.
2. Assim como as coisas devem ser feitos no tempo certo, assim também devem ser feitas no lugar certo; pois o engano quanto ao lugar de qualquer obra é tão ruim quanto a confusão em relação ao seu tempo apropriado. Com isso quero dizer que não devemos considerar qualquer obra mais do que a Palavra de Deus permite, e nem menos. Hortelã, endro e cominho não são assuntos tão importantes quanto a fé e o amor de Deus, como vemos em Mateus 23:23. Quando um pastor exercer o ofício de um diácono, em vez do ofício pastoral, ele está se desviando de suas obras apropriadas (Atos 6:2). O fato de Marta estar preocupada em servir a Cristo, quando na verdade ela deveria estar sentada aos pés dEle para ouvir a Sua palavra, era uma obra imprópria; e se sua irmã tivesse feito o mesmo, como ela pediu, embora a coisa em si fosse boa, Maria também teria cometido um pecado (Lucas 10:39-42). Agora, para nos prevenir de atribuir uma posição inadequada às boas obras, podemos observar o seguinte:
(1.) As boas são mal posicionadas quando colocadas no lugar de Cristo (Romanos 10:1-3).(2.) Elas também estão no lugar errado quando competem com Cristo (Romanos 9:31-32; Atos 15:1). Isso equivale a nos colocarmos no lugar de Deus e estabelecermos a justiça do homem ao invés da justiça de Cristo (Ezequiel 43:7-8). Os que fazem isso e ainda se dizem ser mestres da lei, não sabem o que dizem nem o que afirmam (1 Timóteo 1:7).(3) As obras boas também são colocadas no lugar errado quando atribuímos a uma obra menor a honra que pertence a uma obra mais nobre. E assim acontece com: (a.) Aqueles que consideram a parte cerimonial de uma ordenança tão boa quanto a doutrina e o significado dela. (b) Aqueles que consideram os ditames e impulsos de uma consciência meramente natural, tão bons, elevados e divinos quanto as orientações e ações do Espírito de Cristo. (c) Aqueles também que consideram ser o suficiente fazer pelo menos uma pequena parte daquilo que Deus ordenou, em vez de considerar tudo o que foi ordenado e até mesmo as coisas mais necessárias e difíceis. (d) Também colocam as obras no lugar errado aqueles que se preocupam com as coisas indiferentes como se fossem as coisas mais absolutamente necessárias para o culto a Deus. (e) Ainda mais grosseiros são aqueles que colocam as tradições dos homens acima ordenadas por Deus. (f) E os piores são os que consideram o amargo como doce e as trevas, como luz. Todas essas coisas devemos evitar como sendo um impedimento absoluto para boas obras.
Portanto, quanto às boas obras, a obediência é melhor do que o sacrifício; ou seja, fazer as coisas de acordo com a Palavra de Deus é melhor do que fazê-las de acordo com minha imaginação e com o que acho ser melhor (1 Samuel 15:22). “Portanto, tudo seja feito com decência e ordem” (1 Coríntios 14:40).
Em quarto lugar, assim como as boas obras devem ser ordenadas e qualificadas, como vimos anteriormente, assim também elas devem ser feitas de coração, de boa vontade, com simplicidade e amor, de acordo com as capacidades de cada um (1 João 5:3; 2 Coríntios 9:7; Romanos 12:8; Colossenses 3:12; 1 Coríntios 10:24; 2 Coríntios 8:12).
Além disso, há três coisas que um homem deve ter em mente em toda a obra que realiza. 1. A honra de Deus (1 Coríntios 6:20). 2. A edificação do seu próximo (1 Coríntios 14:26). 3. A conveniência ou não do que devo fazer (1 Coríntios 6:12). E deve cuidar para que sempre a honra de Deus esteja envolvida na edificação do seu próximo; e a edificação do seu próximo na conveniência daquilo que você faz.
Novamente, se você deseja a edificação do seu próximo e que deus seja honra aos olhos das pessoas que lhe observam, tome cuidado para:
1. Que você se humilhe em suas palavras e conduta de modo que Cristo em Seus preciosos benefícios seja manifestado com clareza, e vigie para que não venha a contender acerca de questões duvidosas com os fracos (Romanos 15:1). Mas lide principalmente, com amor e sabedoria, com as consciências deles sobre os assuntos que tendem a promover a sua confirmação na fé de sua justificação e libertação da morte e do inferno. “Sustenteis os fracos”, confirme os fracos (1 Tessalonicenses 5:14).
2. Se você for mais forte que seu irmão, cuide para que não faça diante dele o que pode ofender a sua consciência fraca. Falo sobre as coisas que em si mesmas podem ser legítimas. Nem tudo o que é lícito convém, nem tudo o que é lícito edifica (1 Coríntios 6:12). Portanto, aqui está a sua sabedoria e o amor: que você se prive de algumas coisas lícitas por amor ao seu irmão. “Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize” (1 Coríntios 8:13). Portanto, tenha essa fé para si mesmo diante de Deus (Romanos 14:22). Mas se você andar de outro modo, saiba que não anda conforme o amor e, portanto, não edifica o próximo e nem honra a Cristo, mas antes peca contra Jesus e fere o seu irmão fraco, por quem Ele morreu (Romanos 14:15; 1 Coríntios 8:12). Entretanto, faça tudo isso enquanto mantém os seus olhos na Palavra de Deus; cuide para não agir contra ela sob qualquer pretexto; pois sem a Palavra, é impossível agradar a Deus ou edificar nosso irmão. Portanto, porte-se “com inteligência no caminho reto” (Salmos 101:2-3).
Assim, após lhe mostrar brevemente o que é uma obra realmente boa, imploro em nome do Senhor Jesus Cristo que você pratique boas obras de modo consciente, para que, enquanto viver aqui, seja um vaso de honra, adequado para o uso do Mestre e preparado para toda boa obra (1 Timóteo 6:18). Estude para aprovar as coisas excelentes, “para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo” (Filipenses 1:10). Busque a comunhão com Deus: “Procurai com zelo os melhores dons” (1 Coríntios 12:31). Ah, quanto a nós — que somos redimidos dentre os homens (Apocalipse 14:4), e que nos alegramos na esperança da glória de Deus (Romanos 5:2), nós que aguardamos a bendita esperança e a gloriosa aparição do grande Deus, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (Tito 2:13) — “que pessoas nos convém ser em santo trato e piedade” (2 Pedro 3:11)!
Para concluir, para a maior edificação de vocês façam um examinem a si mesmo quanto aos seus vários deveres e obras de modo geral, aos quais Deus lhes ordena em Sua palavra, de acordo com suas posições, chamados e relações neste mundo.
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O
texto deste artigo foi é um trecho extraído do livro: “Piedade Cristã de John
Bunyan, (páginas 12-26) publicado pela Editora O Estandarte de Cristo. O livro
pode ser encontrado na íntegra em https://drive.google.com/file/d/1EUB-hzTysNmOlRo6T5R51f8MyxRdOD7f/view?usp=sharing
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