O que Jesus na prática quis dizer com: "não vim trazer paz, mas espada"? (Mt 10.34)

Por José Eduardo

O mundo é um misto de tudo. E um dos maiores apelos do mundo é a cultura. E por que? Porque a cultura é o resultado do processo dos costumes, o etos. Isto torna-se tradições, e como as clãs no passado necessitavam de afirmações para serem notadas e respeitadas, isto foi se consolidando como algo intocável. Eu vou citar um exemplo muito objetivo quanto a esta questão. Lendo um periódico da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) sobre a evangelização dos índios Terena no Matogrosso (deixarei o periódico disponível ao final deste artigo)[1], que apesar do caso em si não afirmar que todos os Terenas foram de fato convertidos, pois muitos deles estavam expostos a disputas político-religiosas entre si para se afirmarem na "sociedade civilizada", o que temos em curso é que, os Terenas de 1860-1960 nunca mais foram os mesmos. Uma das evidências é que, na disputa pela evangelização deles entre católicos e protestantes, e busca dos próprios Terenas pela afirmação na "nova sociedade", eles em parte eram paroquiais e romanizados e em parte eram protestantes, mas em muitos casos, o xamanismo os unia novamente, mesmo porque, do ponto de vista sociológico, o xamanismo era também uma forma de equilibrar a balança cosmológica dos terenas[2]. O xamanismo é um ritual ancestral para se estabelecer contato com os espíritos. O que estou querendo dizer com isso é que, os próprios Terenas em sua grande parte adaptou a sua cultura indígena, convivendo com o cristianismo e o xamanismo ao mesmo tempo. Os antropólogos, sociólogos, ativistas e simpatizantes de ideia de que nenhuma cultura deve ser modificada por elementos externos parecem não considerar que os próprios cultivadores das suas culturas muitas vezes não querem essa defesa. E este é só um lado da questão. Não estou nem entrando na parte em que Jesus Cristo entra nesta questão. Até aqui só estou acompanhando o processo pela perspectiva dos Terenas que, aproveitando o momento de autoafirmação, permearam o cristianismo a sua cultura, fazendo modificações internas na ética da tribo o que é óbvio. Ao ler o periódico, você terá esta clara noção.

Mas então, em se tratando da fala de Jesus - "não vim trazer paz, mas espada" (Mt 10.34), certos Terenas, que eu mesmo vi, pintados e de cocar, estavam somente fazendo uma menção visual de onde vinham no passado, mas suas palavras e suas ações estavam apontando para a vida que agora tinham e para onde estavam rumando ir. O Missionário Ricardo Poquiviqui Terena, pessoa com quem tive contato pessoalmente é a prova do que eu estou falando. O conheci em 2007,  cantando em língua Terena. Mas a verdade é que seu trabalho com os índios de sua tribo não se trata em meramente fazer discursos bíblicos com aceitação passiva do xamanismo entre seus pares. Missionário Ricardo Poquiviqui Terena, vive na sua tribo, é um Terena, mas não "congrega" na oca do Xamã. Existe uma "linha divisória" na taba dos terenas que foi exposta em 2013 em um artigo da Revista Ultimato[3]. Os que se sentem abalados com qualquer coisa, a frase "linha divisória" na taba dos terenas seria o mais politicamente incorreto, no entanto é a mais pura realidade. E não porque o Missionário Terena é um provocador de motim. pelo contrário. Ricardo Poquiviqui á antropólogo e tem feito um trabalho pioneiro na CONPLEI[4], agência missionário indígena. Fato é que, esta "linha divisória" se dá não porque seja o prazer do Missionário Ricardo, mas pela própria resistência do mundo. Jesus está sendo óbvio ao dizer que a espada viria acompanhado dele, porque o que ele diz e quer, divide os homens carnais. É assim na história. A Revolução Jacobina (1792-1794) entre tantas coisas se negava a manter o cristianismo vivo na França, então não só criaram um calendário peculiar da revolta, como retirou dele qualquer data que remetesse a França ao cristianismo. Ou seja, até que os homens venham se render a Cristo, as linhas divisórias se manterão.
Uma das formas mais comuns de se manter esta divisão é a defesa romântica da manutenção da cultura. Recentemente li o seguinte Tweet e francamente me posicionei:

ARGUMENTO 1 - O CRISTIANISMO NÃO TE LEVA A DEIXAR UAM CULTURA ... JESUS VIVIFICA CULTURAS

"se um judeu se converte ao cristianismo ele não deixa de ser judeu, se um cigano se converte não deixa de ser cigano, se um indígena se converte não deixa de ser...Jesus não mata culturas, vivifica elas. N existe uma cultura eleita, existem corações avivados" 

Este argumento é empobrecido com a visão do que terreno, sem nem considerar as ponderações mais simples como a de que somos peregrinos dessa terra (1 Pe 2.1). É bem verdade que Jesus disse que não nos iria tirar do mundo agora (Jo 17.15), mas ao mesmo tempo já vivemos como se não fossemos mais deste mundo (Cl 3,1). Isto tem motivos óbvios de serem ditos na Bíblia, é para que não nos deixemos moldar por este mundo caído.

RESPOSTA 1

"Em que sentido não deixa de ser judeu? Porque para eles o judaísmo é uma identidade nacionalista e uma religião. Em certo sentido, um judeu convertido terá que abandonar o etos religioso que é parte da cultura judia. Por lá essas coisas se misturam."

Há pessoa que realmente, Jesus esteve e está preocupa que um cristão viva para reafirmar suas tradições culturais seculares.

ARGUMENTO 2 - JESUS ERA JUDEU (LOGO ISTO É BASE SUFICIENTE PARA SAIRMOS EM DEFESA DA CULTURA?)

"Muito bom, Jesus é judeu inclusive"

Claro, o melhor argumento é que Jesus era judeu, isto reforça o imaginário. Mas nem se deu o trabalho de verificar as "entrelinhas" que evidenciam os reais fatos.

RESPOSTA 2

"Ele foi judeu. Por exemplo, quando ele voltar, ele não virá como um ser étnico, mas celestial. Até mesmo Paulo, que foi um tradicional judeu considerou isso como perda para se aproximar de Cristo (Fp 3.1-8). Jesus não chamou ninguém a apegos culturais."

Eu cito o texto de Filipenses 3, e nem fui tão a fundo nas palavras mais "politicamente incorretas" de Paulo que diz que considerava tudo como esterco. Mas o erro da excessiva defesa da cultura secular continua:

ARGUMENTO 3 - JESUS ERA JUDEU (LOGO ISTO É BASE SUFICIENTE PARA SAIRMOS EM DEFESA DA CULTURA?)

"Fisicamente Ele é judeu. Ele tem o mesmo corpo (so que glorificado) que tinha há dois mil anos atrás. As marcas dos pregos em seus pulsos estão continuam la"

Fisicamente? Então a Jesus resta isto? 

 RESPOSTA 3

"Não acho que alguém precise de fato romper com sua cultura, mas isso ocorre naturalmente no cristianismo, quer pela oposição que a cultura secular faz a fé, quer porque Jesus Cristo irrompe com isto. Culturalmente ele nem deveria pisar em Samaria, mas fez isso."

Se o fato de Jesus ser fisicamente ser judeu fosse tão relevante, o que ele estava fazendo em Samaria, sendo judeu? Ele estava lá como judeu ou como Messias?

A piedade cristã exige de nós rompimentos, mas não desafetos. Uma coisa é bem diferente da outra. Talvez, no imaginário coletivo, a cultura seja aquela fonte primitiva de segurança. O que é um ledo engano. Não estamos seguros nela. Ela jaz no mundo que trás aflições. Por outro lado, nos asseguramos em Jesus Cristo, firmeza nossa.

Solus Christus

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[1] HISTÓRIA E COSMOPOLÍTICA TERENA NO SUL DE MATO DE GROSSO (1860-1960) - https://drive.google.com/file/d/1yGasvJsWEAjpdsjTKfpBFZJAtcY1CjOB/view?usp=sharing

[2] Protestantismo a Moda Terena, pg. 135-136 (https://repositorio.ufgd.edu.br/jspui/bitstream/prefix/2259/1/protestantismo_a_moda_terena.pdf)

[3] Indígenas terena têm rede de igrejas evangélicas - Artigo da Revista Ultimato de 2013 - https://www.ultimato.com.br/conteudo/indigenas-terena-tem-rede-de-igrejas-evangelicas

[4] Conheça a CONPLEI - https://www.conplei.org.br/